quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Ela se debateria ao longo de toda a vida entre a necessidade de pertencer e a tenaz insistência de manter-se à parte.
Por Benjamin Moser, em 'Clarice,'
Cosacnaif, edição de bolso
Aliás, Drummond escreveu, por ocasião de sua morte:
"Clarice, veio de um mistério, partiu para outro".
[retirado da mesma obra]
*
o dia realiza-se
de propósito contra
todas as hipóteses do não
surgimento do sol
sem tempo
para comparecer
onde vela-se
a logística dos fatos
propõe-se-me
a identidade como
exercício de desap-
ego
Por Ricardo Domeneck, em 'a cadela sem Logos'
NO CORPO
De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
Por Ferreira Gullar, em 'Dentro da noite veloz'
José Olympo Editora - 4ª Edição
terça-feira, 21 de junho de 2011
A rua dos cataventos
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Por Mário Quintana
sábado, 14 de maio de 2011
Primeiro Parágrafo
“A paixão é um fio de chuva em vidro de janela. Na vida de João Rosa, janelas se sucederam, paixões escoaram, sem rosto nem rasto. Mulheres escorreram como apressadas gotas e se neblinaram, aves cruzando os céus. João Rosa não lembrava de nenhuma das mulheres que amara. Mentira, recordava Clarice. Talvez porque tenha sido apenas há semanas que a relação rompera. Talvez porque ainda a amasse. Talvez. Como dói o indeciso tempo do “talvez”. Pior que essa dor só mesmo a conformada certeza dos amores eternos”.
Por Mia Couto, em ‘Olhos nus olhos’, conto da coletânea ‘essa história está diferente’, organizado Por Ronaldo Bressane – Companhia das Letras
sábado, 16 de abril de 2011
Chaves para um monólogo de dois
Caminhávamos escuros pela noite só
tendo à mão alguns versos que costuravam a boca
com um par de pontos em favor do silêncio
- Um jogo de palavras - a língua
se fazia um ninho de fios para emaranhar
as metáforas destes encontros noturnos
que terminavam em parques,
cujos nomes convertíamos em chaves
ou cruzes para marcar o mapa
de nossos desenganos.
com um par de pontos em favor do silêncio
- Um jogo de palavras - a língua
se fazia um ninho de fios para emaranhar
as metáforas destes encontros noturnos
que terminavam em parques,
cujos nomes convertíamos em chaves
ou cruzes para marcar o mapa
de nossos desenganos.
Claves para un monólogo de dos
Caminábamos oscuros por la noche sola
de la mano de unos versos que cosían la boca
con un par de puntos a favor del silencio
- un juego de palabras -, la lengua
se hacía un nudo de hilo para enredar
las metáforas de esas citas nocturnas
que se llevaban a cabo en parques,
cuyos nombres convertíamos en claves
o cruces para marcar el mapa
de nuestros desaciertos.
Livre tradução, minha, do poema de Andrés Anwandter, extraído da coletânea Diecinueve (Poetas chilenos de los noventa), Editora J.C. Sáez
terça-feira, 5 de abril de 2011
Lar, doce lar
'A casa não pode estar nem muito em cima, nem muito embaixo. Deve ser solitária, mas não em excesso. Os vizinhos devem ser invisíveis. Não quero vê-los, nem ouvi-los. Deve ser original, mas não incômoda. Nem muito grande, nem muito pequena. Longe de tudo, mas perto da animação. Além disso, deve ser muito barata'.
Texto: Guia 'O melhor de Santiago do Chile', Editora Abril
Fotos: Fábio Rodrigues
terça-feira, 15 de março de 2011
PELA RUA
Sem qualquer esperança
Detenho-me diante de uma vitrina de bolsas,
(...)
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
...........................e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
..................miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
Tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço deste edifício em frente,
talvez esteja vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
.......solto ao fumo de gasolina queimada.
Por Ferreira Gullar, em 'Dentro da Noite Veloz', José Olympo Editora, 4ª Edição
Detenho-me diante de uma vitrina de bolsas,
(...)
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
...........................e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
..................miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
Tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço deste edifício em frente,
talvez esteja vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
.......solto ao fumo de gasolina queimada.
Por Ferreira Gullar, em 'Dentro da Noite Veloz', José Olympo Editora, 4ª Edição
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
[...]
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
E não entraves seu uso
aos que têm sede.
Por Cora Coralina, em "Vinténs de cobre: meias confissões de Aninha", Editora Global.
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
[...]
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
E não entraves seu uso
aos que têm sede.
Por Cora Coralina, em "Vinténs de cobre: meias confissões de Aninha", Editora Global.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Recomeço
NASCER
Nascer
outra e outra vez
indefinitivamente
como a planta sempre nascendo
da primeira semente;
pensar o dia bom
até criar a claridade
e nela descobrir
a primeira sílaba
da primeira canção
****************************
PROCURO UMA ALEGRIA
Procuro uma alegria
na mala vazia
do fim do ano
e eis que tenho na mão
- a flor do cotidiano -
o vôo de um pássaro
e de uma canção
Por Carlos Drummond de Andrade, em Poesia Errante, Editora Record
Nascer
outra e outra vez
indefinitivamente
como a planta sempre nascendo
da primeira semente;
pensar o dia bom
até criar a claridade
e nela descobrir
a primeira sílaba
da primeira canção
****************************
PROCURO UMA ALEGRIA
Procuro uma alegria
na mala vazia
do fim do ano
e eis que tenho na mão
- a flor do cotidiano -
o vôo de um pássaro
e de uma canção
Por Carlos Drummond de Andrade, em Poesia Errante, Editora Record
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