segunda-feira, 2 de maio de 2016
Quando um conto de fadas merece respeito
Maria, nem sei por onde começar. A contar. A minha história
de amor. Quando ele, Meu Deus, entrou na lavanderia. Parecia propaganda de
sabão. Tudo em minha volta ficou limpo, límpido, esse mundo cão.
- Pois não.
Cheiroso, nem olhou para o meu alvoroço. Nem sequer um
pensamento. Leve. Ele, dentro de uma bolha. Eu, tão rastejante. Nada, a partir
daquela manhã, foi a mesma coisa. Meu trabalho desandou. Boiou. Quase perdi o
emprego.
Amor, Maria, amor.
Sabe o que é isso?
Fragrância de flor.
Comecei a usar blusinha curta. E a esperar. Toda a sexta
atrás de sexta. O meu homem chegar. Sem olhar para o meu perfume, apenas
ordenar: para lavar, secar e passar. A barba mal aparada dentro dos óculos de
marca. Escuro. Sua língua rosa. Juro: eu mordiscava.
Que nada!
Nenhum aceno de verão.
Inverno. Eu queria ele para meu marido, Maria, sério. Sabe galã de novela? Era
o que era. A alma atlética dele. Miséria! Mulher como eu, sujinha e pobrinha,
chance nenhuma. Como ganhar na lotérica.
Impossível!
Mas a gente não deve desistir.
Feito nódoa que a gente tira com sacrifício. Ali, esfrega. Torce,
bate na centrífuga. O nosso destino. Um dia muda de cor.
Foi aí que tive a ideia.
Peguei o pentelho da sua cueca. Feito este, olhe. Não tenha
nojo. Pelo grosso que eu levei para o Painho.
- Eu quero esse homem só pra mim.
- Minha filha, ele será seu, sim.
Foi o que meu orixá prometeu. E eu acreditei. Eu me agarrei
nessa fé. Eu rodopiei e dancei, no batuque. Meu, só meu. Príncipe e rei.
E saiba você que não fiquei só nisso.
Pirei. Levei para a minha casa sua samba-canção. E sambei. Vestido
dentro do corpo dele o meu umbigo. Eu vesti. E senti entre as minhas coxas as
suas coxas. E, Maria, jura que não conta? Assim, melequei a roupa do cliente.
Múltiplos orgasmos, entende? Paixão que foi me deixando quente e doente.
Veio um dia, na lavanderia, com a quenga. A namorada.
Painho, por que não tira do meu caminho essa desgraçada? Mata ela afogada na
água sanitária?
Casal tão feliz na frente do meu nariz. Ah! Meu pai! E
quando casarem? E tiverem filhos ruivos e ricos, me diga. Sou eu quem vai lavar
a bosta inteira da família? As fraldas do berço?
Nem pensar.
Algo teria de acontecer.
Minha nova ideia foi perder dinheiro.
Isso, Maria, dinheiro. Que eu não tinha. Fiz uma reservinha
e, quando ele veio, paguei.
- encontrei no seu bolso.
Cinquenta reais.
Mentira!
Era só para ele ver o quanto eu valia. Nadinha. E eu poderia
encontrar tantos tesouros para ele. Ao inferno eu iria, juro. Ao cu do mundo. Dourado.
Ele, espantado, agradeceu com um sorriso.
Maria, Maria!
Até hoje guardo na vista. Aquele primeiro sorriso, aberto...
um sol todo para mim.
Banhando a natureza, enfim. Sacando as almas chorosas.
Essência de rosas, Maria.
Essência de rosas.
Daí por diante, melhorou um pouco. Ele já chegava e colocava
óculos no peito, tesudo. E batia o olhar no meu olho. E falava um pouco mais
felpudo: para lavar, secar e passar.
E o tempo foi passando e eu fui de novo lá:
- Painho, assim não dá.
- Você vai à casa dele.
- O quê?
- Isso não vai demorar.
Quantos pentelhos terei de resgatar do fundo do cesto para
que isso aconteça? O pior foi quando numa sexta-feira, Maria, a maldita
apareceu. A namorada azeda.
Veio deixar a trouxa dele e as calcinhas dela. De morango.
Fui ao centro e gastei mais dinheiro. Comprei calcinhas iguais. Apertadinhas.
De tudo que é frutinha. O que ela está pensando? Se sou eu, euzinha a única que
cuida dos seus lençóis e das suas fronhas. Sonho com os seus sonhos. E durmo.
Que susto!
Era ele no telefone.
- Você poderia trazer o meu paletó?
- O quê?
- Aqui no apartamento?
- Como?
- Estou sem tempo.
Maria, para você ver como é a vida. Pura persistência. Não tem essa de achar que não se pode misturar. Todo mundo acaba
por girar na mesma máquina. Imensa.
Corri para a rua. Retoquei o batom. Feito puta. Ele prometeu
uma gorjeta. Se eu lá fosse. E subisse.
- Eu tenho de subir.
Se o porteiro não me deixasse, haveria morte. Eu pularia no
seu cangote, rasgaria o seu bigode. Não foi preciso. Entro no elevador como
quem entra no futuro. Não mais pelos fundos. Bem que o Painho adivinhou. Era
para ser de verdade, Maria, esse amor.
Chamei. Ele veio atender.
Não era ele...
Um careca, ora essa. Engano.
- Aqui, querida.
No mesmo corredor, na porta em frente, esperava-me o senhor da minha vida.
- Ó o paletó.
Agradeceu e me deu (devolveu) dez reais. Calculei: agora, só
me deve quarenta. Ora, ele que não pense que eternamente as coisas vão ficar
assim. Neste chove-não-molha. Pedi água. Suei, falei que não estava me sentindo
bem e desmaiei.
Isso que você ouviu, Maria, desmaiei. Despenquei feito vento
quando bate numa pétala. Simulei.
Vi quando ele me despejou no sofá. Trouxe lencinho engomado
e álcool. Como um pai, preocupado. Meu marido velho, para todo o sempre.
Fui acordando, brotando displicentemente.
- Onde estou?
- Melhorou?
Pedi só para descansar um pouco ali, no conforto.
Almofadas cheirando a sabão de coco.
Enquanto ele vestia, no quarto, o seu paletó. Meu trabalhador. Senti-me sua
esposa, àquela sala. Indisposta. Quem sabe, grávida?
De propósito, cerrei os olhos. Até que ele veio e me chamou.
Bem perto, outra vez.
- Melhorou?
Eu não aguentei e puxei o seu corpo pela gravata. Com a cara
mais lavada, sabe o que eu fiz? Maria, eu sou doida.
Dei-lhe um beijo desentupidor.
Parece que o mundo virou um ralo só.
E nós dois, sugados pelo mesmo destino.
Juntos desde aquele dia. Quem diria?
Escute bem, Maria. Se hoje é você quem lava a cueca de seu
marido, amanhã, pode ser a dona da lavanderia.
Por Marcelino Freire, em ‘Roupa Suja’, conto extraído de
Rasif – mar que arrebenta.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Do livro dos abraços
O sistema/1
Os funcionários não funcionam. Os políticos falam mas não dizem. Os votantes votam mas não escolhem. Os meios de informação desinformam. Os centros de ensino ensinam a ignorar. Os juízes condenam as vítimas. Os militares estão em guerra contra os seus compatriotas. Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessos. As pessoas estão a serviço das coisas.
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Mapa-múndi/2
(...) ensina o sistema, a violência e fome não pertencem à história, mas à natureza, e a justiça e a liberdade foram condenadas entre si.
Por Eduardo Galeano, em 'O livro dos abraços'.
Globaritarismo
"É preciso explicar por que o mundo de hoje, que é horrível, é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e das insurreições e eu ainda sinto a esperança como minha concepção de futuro."
Jean Paul Sartre, no prefácio de 'Os condenados da Terra', de Frantz Fanon (1963)
Jean Paul Sartre, no prefácio de 'Os condenados da Terra', de Frantz Fanon (1963)
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"Tudo se discute nesse mundo, menos uma única coisa (...) Não se discute a democracia. A democracia está aí, como se fosse uma espécide de santa do altar, de quem já não se esperam milagres (...) Não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada, porque o poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não gosta e botar outro de que talvez venha a gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas numa outra esfera e todos sabemos qual é - das grandes organizações financeiras internacionais,os FMIs, as organizações mundiais de comércio, os bancos mundiais, a usde, tudo isso. Nenhum desses organismos é democrático e portanto, como é que podemos continuar a falar de democracia, se aqueles que efetivamente governam o mundo não são elegidos eleitos democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países nestas organizações? Os povos? Não. Então onde é que está a democracia?"
José Saramago
José Saramago
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Trechos do documentário sobre Milton Santos, 'O mundo global, visto do lado de cá', disponível na íntegra, no link abaixo:
www.youtube.com/watch?v=Vyw-abhInxw
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Bom. Até no título.
Os sobreviventes (Para ler ao som de Ângela Ro-Ro)
...Uma certa saudade, e você em Sri-Lanka, bancando o Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele foi bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse aqui entre nós, palmeiras & abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco de Ângela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodca nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha-de-centro em junco indiano que apoia nossos fatigados pés descalsos ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, ela diz que sim, claaaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trept, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos exitenciais e bababá em comum só podiam era dar nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta
(...)
...e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa um cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing in special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o cvv às quatro da madrugada e alugo a cabeça de um panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva que insistir sem fé nenhuma?
Por Caio Fernando de Abreu, em Morangos Mofados, Editora Agir.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Essa ferida, meu bem...
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
Trecho de 'O amor bate na aorta', Drummond
domingo, 14 de julho de 2013
Indolente
E tem um limite para a tragédia, um limite de sentimento, mais ou menos como a percepção do frio numa região glacial. Depois de trinta graus abaixo de zero, que sentido tem o termômetro?
Por Cristóvão Tezza, em 'Um erro emocional'.
Por Cristóvão Tezza, em 'Um erro emocional'.
E quem for cego, veja de repente, todo o azul da vida...
A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse
'Finja que não está descalça,
Dance alguma valsa
Quero ser seu par'
Por Chico Buarque, em 'Ano Novo'.
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse
'Finja que não está descalça,
Dance alguma valsa
Quero ser seu par'
Por Chico Buarque, em 'Ano Novo'.
sábado, 13 de julho de 2013
Desexistir
Quando eu desisti
de me matar
já era tarde.
Desexistir
já era um hábito.
Já disparara
a auto-bala:
cobra cega se comendo
como quem cava
a própria vala.
Já me queimara.
Pontes, estradas,
memórias, cartas,
toda saída dinamitada.
Quando eu desisti
não tinha volta.
Passara do ponto,
já não era mais
a hora exata.
Por Frederico Barbosa, em 'Contracorrente'.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Não há guarda-chuva
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
Por João Cabral de Melo Neto
Foto: Thai, em Paraty. Praça da Matriz. Flip 2013.
Foto: Thai, em Paraty. Praça da Matriz. Flip 2013.
Ela desatinou
Quem não inveja a infeliz, feliz
No seu mundo de cetim, assim,
Debochando da dor, do pecado
Do tempo perdido, do jogo acabado...
Por Chico Buarque
No seu mundo de cetim, assim,
Debochando da dor, do pecado
Do tempo perdido, do jogo acabado...
Por Chico Buarque
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