domingo, 10 de junho de 2012

A MULHER INDEPENDENTE

"Em que eu seria mais independente do que qualquer outra mulher? Quase todas que eu conheço trabalham, ganham seu próprio sustento, defendem suas opiniões e votam em seus próprios candidatos. Algumas não gostam de ir ao cinema sozinhas, mas eu não me importo. [...] Quase nenhuma, que eu lembre, viajou sozinha, eu já. E nisso consta toda minha independência, o que não me parece suficiente para assustar nunguém.

Fico imaginando que essa tal "mulher independente", aos olhos dos outros, pareça ser uma pessoa que nunca precise de ninguém, que nunca peça apoio, que jamais chore, que não tenha dúvidas, que não valorize um cafuné. Enfim, um bloco de cimento.

[...] Independência nada mais é do que ter poder de escolha. Conceder-se a liberdade de ir e vir, atendendo suas necessidades e vontades próprias, mas sem dispensar a magia de se viver um grande amor. Independência não é sinônimo de solidão. É sinônimo de honestidade: estou onde quero, com quem quero, porque quero.

Sobre a questão da independência afugentar os homens, Marina Colasanti brincava: 'Se isso for verdade, então ficarão longe de nós os competitivos, os que sonham com mulheres submissas, os que não são muito seguros de si. Que ótima triagem".

[...] Acredito que a independência feminina é estimulante, alegre, desafiadora, vital, enfim, uma qualidade que promove movimentação e avanço à sociedade como um todo e aos familiares em particular. "Eu preciso de você" talvez seja uma frase que os homens estejam escutando pouco de nós, e isso talvez lhes esteja fazendo falta. Por outro lado, nunca o "eu amo você" foi pronunciado com tanta verdade".

Por Martha Medeiros, em 'Feliz por nada', L&PM Editores, 38ª Edição.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Trecho de Lama XI

acaba que cada um
ao menor problema
se muda de si mesmo
para um pouco mais longe
todos os dias
para um pouco mais longe

no máximo a gente se acompanha
forçando o sorriso

Por Antoine Emaz, "Lama" XI
Tradução de Júlio Castañon Guimarães

A troca da roda

Estou sentado no barranco da estrada.
O condutor trocando a roda.
Não gosto do lugar de onde vim.
Não gosto do lugar para onde vou.
Por que eu vejo a troca da roda
Com impaciência?

Por Bertold Brecht, em Seis décadas de poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. Antologia bilíngue.
trad. de Markus J. Weininger e Rosvitha Friesen Blume.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Coisas que são

As perdas das coisas, confesso que nunca me importaram muito, mas as perdas das pessoas sim, doeram e, em alguns casos, deixaram um buraquinho muito difícil de preencher. Mas bom, este mundo está armado assim, é um tecido de encontros e desencontros, de perdas e ganhos e o melhor dos meus dias é o que ainda não vivi. A cada perda, corresponde um encontro que ainda não tive e por sorte a realidade é generosa e não falha nisso. Na verdade, eu escrevo para celebrá-la e a celebrando, denuncio tudo o que impede que a gente reconheça nos outros e em nós mesmos as múltiplas cores do arco-íris terrestre. Somos muitíssimo mais do que nos dizem que somos.

*

A amizade é uma forma do amor e, como dizia para você, acho que se exerce na base da honestidade... porque a outra amizade, a amizade do ‘amo muito você’ e ‘que lindo você é’ não é a verdadeira amizade. Os amigos, quando são amigos de verdade, dizem o que se deve dizer e isso diz respeito às pessoas e aos processos coletivos também. Então, a amizade às vezes é difícil, sobre essa base, porque atravessa períodos complicados, mas, quando a gente ama de verdade, no amor, na amizade, ama as luzes e as sombras de cada pessoa ou de cada lugar...

*

Existe uma poeta norte-americana, uma mulher, que morreu faz alguns anos e se chamava Muriel Rukeyser...ela disse uma frase que sempre me pareceu esplêndida, disse: ‘tá, ta bem, isso que o mundo é feito de átomos... o mundo não é feito de átomos, o mundo é feito de histórias’.... Eu acredito que sim, o mundo deve estar feito de histórias porque são as histórias que a gente conta, que a gente escuta, recria, multiplica... São as histórias que permitem transformar o passado em presente e que também permitem transformar o distante em próximo, o que está distante em algo próximo, possível e visível.

*

Estamos vivendo um período interessante, lindo, muito criativo, muito fecundo, difícil de compreender às vezes, sobretudo quando se olha de fora e de cima. As coisas que se entendem de verdade são as coisas que podemos entender com a razão e sentir com o coração, são as coisas que a gente é capaz de olhar de dentro e de baixo. Se a gente olhar de cima, com a típica arrogância (...) e se a gente, além de olhar de cima, a gente olhar de fora, não entende nada; e não entende nada por uma razão, por um motivo muito importante: a nossa região é a região que provavelmente é a mais diversa de todas. É a pátria das diversidades humanas. E isto, que para mim é uma virtude, visto de fora é um grave defeito porque se você não entra no modelo, que de cima e de fora acreditam que é democracia, então aqui não existe democracia. E a verdade que prova que aqui existe democracia é que esse seja um reino da contradição e da diversidade onde se misturam, e às vezes brigam, todas as cores, os cheiros e as dores do mundo.

Por Eduardo Galeano, no programa Sangue Latino

http://www.youtube.com/watch?v=w8rOUoc_xKc


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Lugar Comum

"A vida vai sendo levada para longe, como um livro, que tristes querubins contemplam, resignados. (...) Ah, mas as pálidas imagens ainda resistem: saem dos seus primitivos lugares, aparecem onde não as esperávamos, desdobram-se de outras figuras que nos apresentam, acordam as primeiras experiências, as indeléveis curiosidades do nosso amanhecer no mundo. (...) A bondade está ali - detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está sempre posta - Inutilmente o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim. Ninguém estremece. Ninguém pensa nas horas muito a sério. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros. Todos estão ali à espera dos que chegam".
Por Cecília Meireles, em Giroflê-Giroflá

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

cor de Rosa (curiosidades)

"Não me envergonho em admitir que Grande Sertão Veredas me rendeu um montão de dinheiro. A esse respeito, quero dizer uma coisa: enquanto escrevia Grande Sertão, minha mulher sofreu muito, porque eu estava casado com o livro. Por isso dediquei-o a ela. Como sou um fanático da sinceridade lingüística, isso significou para mim que lhe dei o livro de presente, e portanto o dinheiro ganho com esse romance pertence a ela, somente a ela, e pode fazer o que quiser com ele".

Guimarães Rosa

http://www2.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/guimaraesrosa/guimaraesrosa2.htm

cor de Rosa (curiosidades)

Em 38, Guimarães Rosa é nomeado consul-adjunto em Hamburgo, permanecendo na cidade até 42. Durante a Segunda Guerra, passa por uma experiência que detona seu lado supersticioso. É salvo da morte porque sentiu, no meio da noite, uma vontade irresistível, segundo suas palavras, de sair para comprar cigarros. Quando voltou, encontrou a casa totalmente destruída por um bombardeio. A superstição e o misticismo acompanhariam o escritor por toda a vida. Ele acreditava na força da lua, respeitava curandeiros, feiticeiros, a umbanda, a quimbanda e o kardecismo. Dizia que pessoas, casas e cidades possuíam fluidos positivos e negativos, que influíam nas emoções, nos sentimentos e na saúde de seres humanos e animais. Aconselhava os filhos a terem cautela e a fugirem de qualquer pessoa ou lugar que lhes causasse algum tipo de mal estar.

http://www2.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/guimaraesrosa/index.htm

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

POEMINHA SHAKESPEARIANO

"O mundo é um palco"
Me disseram.
Mas vejam o papel
Que me deram!

Por Millôr Fernandes, em 'Papáverum Millôr'.
>>Dica do amigo Agamenon

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Infelicidade é questão de prefixo.


(...) e que viver é um rasgar-se e remendar-se.

Por Guimarães Rosa, no conto 'João Porém, o criador de perus', de Tutameia
Foto: Tom Alves
www.tomalves.com.br / www.flickr.com/photos/tombh/

Setembro

Nunca mais será setembro,
nunca mais a tua voz dizendo
nunca mais, eu lembro,

nunca mais, eu não esqueço,
a pele, nunca mais,
o teu olhar quebrado,

dividido, vou esquecê-lo,
é o que te digo, nunca mais
a minha mão no teu sorriso,

a tua voz cantando,
vou apagá-la para sempre,
e os nossos dias, setembro, lembro

bem, dentro a tua voz dizendo não
(ouço ainda agora), como se quebrasse
Um copo, mil copos, contra o muro.

Rasgarei o que não houve, o que seria,
mesmo que tudo em mim me diga não
(e diz), mas é preciso.

Como não se pensa mais um pensamento,
quero, prometo:
nunca mais será setembro.


Por Eucanaã Ferraz, em Cinemateca.