Por Guimarães Rosa, no conto 'João Porém, o criador de perus', de Tutameiaquarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Infelicidade é questão de prefixo.
Por Guimarães Rosa, no conto 'João Porém, o criador de perus', de TutameiaSetembro
Nunca mais será setembro,
nunca mais a tua voz dizendo
nunca mais, eu lembro,
nunca mais, eu não esqueço,
a pele, nunca mais,
o teu olhar quebrado,
dividido, vou esquecê-lo,
é o que te digo, nunca mais
a minha mão no teu sorriso,
a tua voz cantando,
vou apagá-la para sempre,
e os nossos dias, setembro, lembro
bem, dentro a tua voz dizendo não
(ouço ainda agora), como se quebrasse
Um copo, mil copos, contra o muro.
Rasgarei o que não houve, o que seria,
mesmo que tudo em mim me diga não
(e diz), mas é preciso.
Como não se pensa mais um pensamento,
quero, prometo:
nunca mais será setembro.
Por Eucanaã Ferraz, em Cinemateca.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Cor de Rosa - Pílulas de Tutameia
Meu gosto agora é ser feliz, em uso, no sofrer e no regalo. (...) Para trás, o que passei, foi arremedando e esquecendo. Ainda achei o fundo do meu coração.
A gente tem é de ser miúda, mansa, feito botão de flor.
Eu ficava espremida mais pequena, na parede minha unha riscava rezas, o querer outras larguras.
E o governo da vida?
Experimentei finuras novas – somente em jardim de mim, sozinha.
Ri muito útil ultimamente.
Tudo o que é bom faz mal e bem.
Quero o bom-bocado que não fiz, quero gente sensível. De que me adianta estar remediada e entendida, se não dou conta de questão das saudades?
Fragmentos do conto - 'Esses Lopes'
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Tudo, para mim, é viagem de volta.
Mas não cismo como foi que ele no barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acontecem, estão já desaparecidas. Suspiros. Declaro, agora, defino. O senhor não me perguntou nada. Só dou resposta ao que ninguém me perguntou.
A gente espera é o resto da vida.
Decido. Pergunto por onde ando. Aceito, bem-procedidamente, no devagar ir longe. Voltar, para fim de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar meu falecido, quando as saudades me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
do conto - 'Antiperipléia'
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Ou começava a interrogar-se, desestruturando-se sua defesa. Frescura, quase felicidade; e espinhos perseverantes.
Do nada, nada obteve.
Tudo, quanto há, é saudade alternando-se com novidades: diagrama matemático em calor de laboratório. O diabo não é inteiro nem invento.
Foram felizes e infelizes, misturadamente.
do conto - 'A vela ao Diabo'
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Mas o mundo não é um remexer de Deus? – com perdão, que comparo. (...) Olhos põem as coisas no cabimento.
Agora, de tão firme ele cambaleava, pelos ses e quases, tirado de qualquer resolver.
(...) Ele, vem, me espreitou nos centros, ele suspirava pelos olhos.
Mas ele recedia, ao triste gosto, como um homem vê de frente e anda de costas.
De lá a gente saiu, arrastando eu aquele peso alheio, paixão, de um coração desrespeitado.
Não há como um tarde demais – eu dizendo – porque aí é que as coisas de verdade principiam.
do conto - 'Curtamão'
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Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.
O trágico não vem a conta-gotas.
Todo fim é impossível? (...) O tempo é engenhoso.
Sempre vem o imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se.
Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. (...) Era o seu amor meditado, à prova de remorsos.
A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? (...) incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e de amar a gente não se desfaz.
(...) operava o passado – plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?
Haja o absoluto amar - e qualquer causa se irrefuta.
Trêz vezes passa perto da gente a felicidade.
do conto - 'Desenredo'
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Só perigos o esperassem, repelia pensamentos, ninguém está a cobro da doideira de si e dos outros.
(...) por própria justa defesa, é quando a gente se estraga.
Em mente de olhos ele aprendia o caminho.
Teve de querer rir simples.
do conto - 'Droenha'
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Pois era assim que era, havendo muita realidade. Que faziam estas almas?
Nenhuma delas ganhara da vida jamais o muito – que ignoravam que queriam – feito romance, outra maneira de alma.
Deus é quem sabe o por não vir. A gente se esquece – as coisas lembram-se da gente.
Falava-se de uma ternura perfeita, ainda nem existente; o bem-querer sem descrença. Enquanto isso, o tempo, como sempre fingia que passava.
Sua saudade - tendência secreta - sem memória.
Sua saudade cantava na gaiolazinha; não esperar inclui misteriosas certezas. [...] “Todo dia é véspera...”
do conto - 'Arroio das Antas'
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Por João Guimarães Rosa, em Tutameia (Terceiras Histórias). Editora Nova Fronteira
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Coisas que são
O coração, se pudesse pensar, pararia.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Vem
Porque os dias quebravam contra sua cara,
porque trocara as horas por nada,
quis o espinho extremo.
Mas, sobre encontrá-lo, ninguém
nem nada respondia. Saberia reconhecê-lo
em meio a tudo? Algum sinal?
Um cisne gravado na testa? Talvez
bastasse, à distância, atentar
nos modos de dobrar
ou desfazer as frases,
[...]
o que fosse
aquilo que faria do acaso
o certo,
até que se manifestasse numa forma
inadiável, que figuraria o fruto de
uma longa matemática. Porque seria assim,
poderia ver na matéria mínima a sua fábrica,
o incêndio
que sobreviria contra a indiferença dos seus dias.
[...]
Mesmo sem vestígios, farejava.
[...]
à boca enchendo-o de inocência e desejo.
Era mais seguro não querer. Mas
envenenara-se com o anseio de que
a cidade desaguasse em alguém, não fosse tão-só
pedras de seus olhos se ferirem. Mais seguro
era cegar as vontades. Cerrados, os olhos
calariam o teatro excessivo dos gestos. Talvez
dormisse. Mas a insônia vinha branca
e ácida e alta. Houve uma vez um comandante
prussiano, recostado ao fundo da poltrona,
[...]
lembrava-se, era mais fácil
deixar a solidão crescer no vento, vir ao quadril,
lembrava-se do conto enquanto seus olhos
erravam pelas avenidas, esperança em pêlo, juízo
em vão, fome de um relance, um fio. Suave,
se ainda soubesse, era beber sem supor alguém
após o drinque, gastar-se só, sem presumir
um abraço à saída do cinema, à saída de
sábado. Mas ele sacrificaria qualquer ponderação
para persistir no engano de seguir
à própria sorte por mundos que semelhavam
estacionamentos abarrotados de frases moles,
blogs, celulares, fazer amigos, impressionar pessoas,
dicionários como se fósforos para queimar o tempo,
o tédio, saudades de quando não vagava devastado
pela espera (pela espora, dizia o conto)
de uma lâmpada após o labirinto,
por aquela presença tão-só pressentida,
mas que talvez por adivinhada ardia ainda mais.
Tudo (um exagero) escarnecia dele, sequioso de que
regressasse quem nem mesmo houvera
[..]
Canções de amor
foram o seu veneno,
todas à roda da mesma víscera,
da mesma válvula sentimental,
podia senti-la,
sem amores nem romances, sangue
e bomba apenas, como no peito de um bicho,
que é só um bicho. Então, exausto,
sem nenhum grito, deitou-se
sobre a pedra escura da rua, ou da escarpa
mais alta, ou da lua mais miserável e suja.
Esteve ali, parado, manso,
talvez por anos, sem que nada pedisse
ou pretendesse. E era só uma noite
entre as noites, quando despertou agitado
(deve ter sido assim) pela visão de uns lábios,
vinham acesos, na direção dos seus.
Por Eucanaã Ferraz
Do site: http://eucanaaferraz.com.br/sec_poema_mostra.php?poema=83
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
História verídica
A Samyra, quando pequena,
Parecia um despertador
Mas eu acordava antes
Ao ouvir seus passos desengoçados
Fazendo barulho pelo corredor
A picareta pulava diante da porta,
até alcançar a maçaneta
Entrava no quarto e me sacudia
- Acorda, tia!
- Samyra, o que é?
- Vamos para a sala, quero tomar café!
- Samy, é muito cedo, não seja mala...
- Quero tomar café na sala!
E assim começava o meu dia -
Cheio de preguiça e alegria.
Com ternura, a pequena tecia
Doces versos cotidianos,
Paz e doçura para minha poesia
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
*
Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exatos
Basta para podermos
Achar a vida leve.
De todo o esforço seguremos quedas
As mãos, brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim,
Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,
Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas carícias
Dos instantes volúveis.
Pouco tão pouco pesará nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
‘Scolherrnos do que fomos
O melhor pra lembrar
Quando, acabados pelas Parcas, formos,
vultos solenes de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal
Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
E o regaço insaciável
Da pátria de Plutão.
Por Fernando Pessoa, como Ricardo Reis
Ausência
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
A casa materna
Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna.
[...]
As coisas vivem como em prece [...]. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente.
A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô.
[...]
A casa materna se divide em dois mundos: o térreo onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo, há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roqueford amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta – pois não há lugar mais propício para uma boa ceia noturna. [...] Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe porque queima às vezes uma vela votiva.
[...]
Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.
Por Vinícius de Moraes, em ‘Para viver um grande amor’