quinta-feira, 20 de outubro de 2011

*

Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exatos
Basta para podermos
Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas
As mãos, brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.

E vivamos assim,
Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,
Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas carícias
Dos instantes volúveis.

Pouco tão pouco pesará nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
‘Scolherrnos do que fomos
O melhor pra lembrar
Quando, acabados pelas Parcas, formos,
vultos solenes de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal
Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
E o regaço insaciável
Da pátria de Plutão.


Por Fernando Pessoa, como Ricardo Reis

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim
.

Por Carlos Drummond de Andrade, em 'O Corpo'

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A casa materna

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna.

[...]

As coisas vivem como em prece [...]. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente.

A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô.

[...]

A casa materna se divide em dois mundos: o térreo onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo, há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roqueford amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta – pois não há lugar mais propício para uma boa ceia noturna. [...] Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe porque queima às vezes uma vela votiva.

[...]

Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.

Por Vinícius de Moraes, em ‘Para viver um grande amor’

Coisas que são

O homem que pensa

Tem a fronte imensa

Tem a fronte pensa

Cheia de tormentos.

O homem que pensa

Traz nos pensamentos

Os ventos preclaros

Que vêm das origens.

O homem que pensa

Pensamentos claros

Tem a fronte virgem

De ressentimentos.

Sua fronte pensa

Sua mão escreve

Sua mão prescreve

Os tempos futuros.

Ao homem que pensa

Pensamentos puros

O dia lhe é duro

A noite lhe é leve:

Que o homem que pensa

Só pensa o que deve

Só deve o que pensa.

Poema para Gilberto Amado - Por Vinícius de Moraes, em ‘Para viver um grande amor’

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

RELATÓRIO EM FORMA FECHADA

Os estragos da noite foram vastos,
inversos ao pulsar da primavera:
há tempo em que se luta pelos gastos
rastos da vida e o tempo novo gera

desilusão somente, esse viscoso
correr da insónia como se já água
as lágrimas não fossem e no fosso
há pouco aberto qualquer outra água

de natureza opaca suspendesse
a sua interminável queda; voltas
por fim à noite espessa que já tece
a madrugada com as linhas soltas

da minha vida, versos que transformam
em realidade as sílabas que os formam

Por Gastão Cruz, em 'A moeda do tempo'

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Leite, leitura

leite, literatura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

Por Paulo Leminski, em 'O ex-estranho'

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ela se debateria ao longo de toda a vida entre a necessidade de pertencer e a tenaz insistência de manter-se à parte.

Por Benjamin Moser, em 'Clarice,'
Cosacnaif, edição de bolso

Aliás, Drummond escreveu, por ocasião de sua morte:

"Clarice, veio de um mistério, partiu para outro".

[retirado da mesma obra]

*

o dia realiza-se
de propósito contra
todas as hipóteses do não
surgimento do sol
sem tempo
para comparecer
onde vela-se
a logística dos fatos
propõe-se-me
a identidade como
exercício de desap-
ego

Por Ricardo Domeneck, em 'a cadela sem Logos'

NO CORPO

De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

Por Ferreira Gullar, em 'Dentro da noite veloz'
José Olympo Editora - 4ª Edição

terça-feira, 21 de junho de 2011

A rua dos cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Por Mário Quintana