segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Coisas que são

O homem que pensa

Tem a fronte imensa

Tem a fronte pensa

Cheia de tormentos.

O homem que pensa

Traz nos pensamentos

Os ventos preclaros

Que vêm das origens.

O homem que pensa

Pensamentos claros

Tem a fronte virgem

De ressentimentos.

Sua fronte pensa

Sua mão escreve

Sua mão prescreve

Os tempos futuros.

Ao homem que pensa

Pensamentos puros

O dia lhe é duro

A noite lhe é leve:

Que o homem que pensa

Só pensa o que deve

Só deve o que pensa.

Poema para Gilberto Amado - Por Vinícius de Moraes, em ‘Para viver um grande amor’

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

RELATÓRIO EM FORMA FECHADA

Os estragos da noite foram vastos,
inversos ao pulsar da primavera:
há tempo em que se luta pelos gastos
rastos da vida e o tempo novo gera

desilusão somente, esse viscoso
correr da insónia como se já água
as lágrimas não fossem e no fosso
há pouco aberto qualquer outra água

de natureza opaca suspendesse
a sua interminável queda; voltas
por fim à noite espessa que já tece
a madrugada com as linhas soltas

da minha vida, versos que transformam
em realidade as sílabas que os formam

Por Gastão Cruz, em 'A moeda do tempo'

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Leite, leitura

leite, literatura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

Por Paulo Leminski, em 'O ex-estranho'

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ela se debateria ao longo de toda a vida entre a necessidade de pertencer e a tenaz insistência de manter-se à parte.

Por Benjamin Moser, em 'Clarice,'
Cosacnaif, edição de bolso

Aliás, Drummond escreveu, por ocasião de sua morte:

"Clarice, veio de um mistério, partiu para outro".

[retirado da mesma obra]

*

o dia realiza-se
de propósito contra
todas as hipóteses do não
surgimento do sol
sem tempo
para comparecer
onde vela-se
a logística dos fatos
propõe-se-me
a identidade como
exercício de desap-
ego

Por Ricardo Domeneck, em 'a cadela sem Logos'

NO CORPO

De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

Por Ferreira Gullar, em 'Dentro da noite veloz'
José Olympo Editora - 4ª Edição

terça-feira, 21 de junho de 2011

A rua dos cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Por Mário Quintana

sábado, 14 de maio de 2011

Primeiro Parágrafo

“A paixão é um fio de chuva em vidro de janela. Na vida de João Rosa, janelas se sucederam, paixões escoaram, sem rosto nem rasto. Mulheres escorreram como apressadas gotas e se neblinaram, aves cruzando os céus. João Rosa não lembrava de nenhuma das mulheres que amara. Mentira, recordava Clarice. Talvez porque tenha sido apenas há semanas que a relação rompera. Talvez porque ainda a amasse. Talvez. Como dói o indeciso tempo do “talvez”. Pior que essa dor só mesmo a conformada certeza dos amores eternos”.

Por Mia Couto, em ‘Olhos nus olhos’, conto da coletânea ‘essa história está diferente’, organizado Por Ronaldo Bressane – Companhia das Letras

sábado, 16 de abril de 2011

Chaves para um monólogo de dois

Caminhávamos escuros pela noite só
tendo à mão alguns versos que costuravam a boca
com um par de pontos em favor do silêncio
- Um jogo de palavras - a língua
se fazia um ninho de fios para emaranhar
as metáforas destes encontros noturnos
que terminavam em parques,
cujos nomes convertíamos em chaves
ou cruzes para marcar o mapa
de nossos desenganos.

Claves para un monólogo de dos

Caminábamos oscuros por la noche sola
de la mano de unos versos que cosían la boca
con un par de puntos a favor del silencio
- un juego de palabras -, la lengua
se hacía un nudo de hilo para enredar
las metáforas de esas citas nocturnas
que se llevaban a cabo en parques,
cuyos nombres convertíamos en claves
o cruces para marcar el mapa
de nuestros desaciertos.

Livre tradução, minha, do poema de Andrés Anwandter, extraído da coletânea Diecinueve (Poetas chilenos de los noventa), Editora J.C. Sáez

terça-feira, 5 de abril de 2011

Lar, doce lar


'A casa não pode estar nem muito em cima, nem muito embaixo. Deve ser solitária, mas não em excesso. Os vizinhos devem ser invisíveis. Não quero vê-los, nem ouvi-los. Deve ser original, mas não incômoda. Nem muito grande, nem muito pequena. Longe de tudo, mas perto da animação. Além disso, deve ser muito barata'.

Pablo Neruda, a uma amiga que lhe ajudaria na tarefa de encontrar uma casa, em Valparaíso. Tais requisições parecem ter referenciado sua terceira e última casa, em Santiago.

Texto: Guia 'O melhor de Santiago do Chile', Editora Abril
Fotos: Fábio Rodrigues