sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.

[...]

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
E não entraves seu uso
aos que têm sede.

Por Cora Coralina, em "Vinténs de cobre: meias confissões de Aninha", Editora Global.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Recomeço

NASCER

Nascer
outra e outra vez
indefinitivamente
como a planta sempre nascendo
da primeira semente;
pensar o dia bom
até criar a claridade
e nela descobrir
a primeira sílaba
da primeira canção

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PROCURO UMA ALEGRIA

Procuro uma alegria
na mala vazia
do fim do ano
e eis que tenho na mão
- a flor do cotidiano -
o vôo de um pássaro
e de uma canção

Por Carlos Drummond de Andrade, em Poesia Errante, Editora Record

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

OLINDA WISCHRAL

.....pessoas deviam poder evaporar
quando quisessem
.....não deixar por aí
lembranças pedaços carcaças
.....gotas de sangue caveiras esqueletos
e esses apertos no coração
.....que não me deixam dormir

Por Paulo Leminski, em 'O ex-estranho', Editora Iluminuras.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

cor de Rosa - 17

Medo tenho é porém por todos (...) O que há é uma certa coisa - uma só, diversa para cada um - que Deus está esperando que esse faça. Neste mundo tem maus e bons - todo grau de pessoa. Mas, então, todos são maus. Mas, mais então, todos não serão bons? Ah, para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar a alma, na consciência; para penar, não se carece: bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque. Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha (...) O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem - que Ele é bondade adiante, quero dizer. O senhor escute o buritizal. E meu coração vem comigo...

Por João Guimarães Rosa, em 'Grande sertão: veredas'.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

DECLARAÇÃO

Quantas vezes lhe declarei o meu amor?
Declarei-o verbalmente inúmeras vezes
e o declaram todos os meus gestos tendentes
a você: a minha língua, a brincar com o som
do seu nome, o declara; e o declaram
os meus olhos felizes quando o veem chegar
feito um presente e de repente elucidar
a casa inteira que, conquanto iluminada,
permanecia opaca sem você; e quando,
tendo apagado todas as lâmpadas, juntos,
no terraço, nos consignamos aos traslados
dos círculos do relógio do céu noturno
ou aos rios de nuvens em que nos miramos
e nos perderemos, declaro-o no escuro.

Por Antonio Cicero, em "A cidade e os livros".

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Santo de casa...

(...) tenho refletido bastante sobre a vontade que o homem sente de ampliar seu horizonte, de fazer novas descobertas e errar mundo afora; e pensei também a respeito da sua tendência a submeter-se docilmente a uma existência limitada, a seguir vivendo nas trilhas do hábito, sem incomodar-se com o que acontece à sua direita ou esquerda.
[...]
Da mesma maneira, o mais irrequieto dos aventureiros acaba por desejar o retorno à pátria, encontrando em sua cabana, no regaço da esposa, entre os filhos e no trabalho para sustentá-los a felicidade que procurou em vão no mundo inteiro.

Por J.W. Goethe, em 'Os sofrimentos do jovem Werther'
Martins Fontes*, 2002

*Recomendo com veemência que os interessados por esta obra procurem por outra edição. O editor desta interfere, além do que poderia, no texto original e merece meu repúdio.

sábado, 25 de setembro de 2010

Nostalgia

- Estórias de antigamente é assim que foram há muito tempo?
- Sim, filho.
- Então, antigamente é um tempo, Avó?
- Antigamente é um lugar.
- Um lugar assim longe?
- Um lugar assim dentro.

Por Ondjaki, em 'Avó Dezanove e o segredo do soviético',
Companhia das Letras, 2009.

sábado, 14 de agosto de 2010

MOEDA DO TEMPO




Distraí-me e já tu ali não estavas

vendeste ao tempo a glória do início
e na mão recebeste a moeda fria
com que o tempo pagou a tua entrada.

Por Gastão Cruz, em ' a moeda do tempo e outros poemas'

Imagem por Maurício Takigutthi* (Fonte: http://www.takiguthi.art.br/)

*Houve uma exposição das pinturas deste artista no final do ano passsado, no Conjunto Nacional. Não me lembro de uma obra ter me marcado
tanto nos últimos tempos. Vale a pena conferir.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Fez bobagem

Meu moreno fez bobagem
Maltratou meu pobre coração
Aproveitou a minha ausência
E botou mulher sambando
[no meu barracão.
Quando penso que outra mulher
Requebrou pro meu moreno ver
Não dá jeito de sambar, dá
[vontade de chorar
E de morrer.
Deixou que ela passeasse na
[favela com meu peignoir
Minha sandália de veludo deu
[a ela pra sapatear
E eu bem longe me acabando,
Trabalhando pra viver
Por causa dele dancei rumba
[e fox-trot
Pra inglês ver

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E fui adormecer feito um despacho,
Deitadinha no capacho
Na porta dos enjeitados.

Cresci, olhando a vida sem malícia...

Por Assis Valente e Ary Barroso

sábado, 24 de julho de 2010

A delicadeza das camélias



Diálogo entre concierge e ex-morador de um prédio de luxo...

"Sabe, ele diz, "não voltei para ver o apartamento, nem para ver as pessoas daqui. Nem garanto que me reconheceriam (...) Vim porque não consigo me lembrar de uma coisa que me ajudou muito, já quando estava doente e depois, durante a minha cura."
"E posso lhe ser útil?"
"Pode porque foi a senhora que me disse um dia o nome dessas flores. No canteiro, ali (ele aponta com o dedo o fundo do pátio), tem umas lindas florzinhas brancas e vermelhas, foi a senhora que plantou, não foi? E, um dia, lhe perguntei o que eram, mas não fui capaz de guardar o nome. E olha que eu pensava o tempo todo nessas flores, não sei por quê. São muito bonitas, e, quando eu estava mal, eu pensava nas flores e isso me fazia bem. Então passei perto daqui, há pouco, e pensei: vou perguntar à sra. Michel se ela sabe me dizer."
Ele espreita minha reação meio encabulado.
"Isso lhe deve parecer esquisito, não é? Espero que não fique com medo de mim e de minhas histórias de flores."
"Não", digo, " de jeito nenhum. Se eu soubesse o quanto faziam bem... teria posto por toda a parte!"
Ele ri como um menino feliz.
"Ah, sra. Michel, mas, sabe, isso praticamente salvou minha vida. O que já é um milagre! Então, pode me dizer o que é?"
(...)
"Sim", digo, "são camélias".
(...)
"Jean, você não imagina quanto estou feliz com a sua visita hoje", digo.
"Ah, é?", ele diz, espantado. "Mas por quê?"
Por quê?
Porque uma camélia pode mudar o destino.

Por Muriel Barbery, em 'A elegância do ouriço'