sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Inscrição

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Ó! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...

Por Camilo Pessanha em 'Clepsidra'.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Coisas que são - 4

Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos do Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de descobrirem-se, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia de suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, "leves", disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem nessa estranha vida: porque muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém é capaz de enfrentar toda aquela solidão.

*
A maior parte do tempo, porém, o que nós compartilhávamos era o silêncio. E isso aprendi contigo porque não sabia. Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento. Ao princípio, quando ficávamos calados por muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passear entre nós.
Um dia, tu disseste-me:
- Cláudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.

Por Miguel Sousa Tavares, em 'No teu deserto'


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quanto a mim, você precisa saber que eu precisamente não escolheria a loucura se houvesse outra escolha.

Por Vincent Van Gogh
Trecho de uma carta escrita ao seu irmão quando ele foi invonlutariamente internado num hospital psiquiátrico em St. Remy (1889).

* Retirei de uma passada de olho no livro 'Cadê a minha sorte?', do autor Mario Sergio Limberte, que usa a frase como citação inicial de um capítulo e indica sua referência bibliográfica.

Uma menina igual a mil

E também queria ficar ao pé de ti, excepto quando me irritavas. Havia qualquer coisa em ti que me irritava e me atraía, ao mesmo tempo. Quando eras doce e querido, [...] eu queria ficar ao pé de ti, porque me davas segurança e simultaneamente sentia que devia também proteger-te. Havia um conforto e uma paz ao teu lado que eu não sentia ha muito, muito tempo, e que agora ia sentindo, aos poucos, a tomar conta de mim, como uma coisa antiga e segura, perdida lá longe, algures noutras guerras. Mas quando tu ficavas irritado e irritante, [...], aí eu afastava-me.

Por Miguel Sousa Tavares, em 'No teu deserto'.

Kind of blue

...porque todos nós estamos desacostumados da vida, todos capengamos, uns mais, outros menos. Desacostumamo-nos mesmo a tal ponto que sentimos por vezes repulsa pela "vida viva", e achamos intolerável que alguém a lembre a nós. Chegamos a tal ponto que a "vida viva" autêntica é considerada por nós quase um trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que seguir os livros é o melhor. E por que nos agitamos às vezes, por que fazemos extravagâncias? O que pedimos? Nós mesmos não o sabemos. Será pior para nós mesmos se forem satisfeitos os nossos extravagantes pedidos. [...] Nem mesmo sabemos onde habita agora o que é vivo, o que ele é, como se chama. Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pesado até ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios; temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser homens gerais que nunca existiram. Somos natimortos, já que não nascemos de pais vivos e isto agrada cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma ideia...

Por Fiódor Dostoiévski, em 'Memórias do Subsolo'
Tradução de Boris Schnaiderman

domingo, 29 de novembro de 2009

O acendedor de lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!

Este mesmo que vem infatigavelmente,

Parodiar o sol e associar-se à lua

Quando a sombra da noite enegrece o poente!


Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite aos poucos se acentua

E a palidez da lua apenas se pressente.


Triste ironia atroz que o senso humano irrita: -

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita,


Tanta gente também nos outros Insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade,

Como este acendedor de lampiões da rua!


Por Jorge de Lima

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O milagre das folhas

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: " Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação quebraria." Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer - seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.

Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.

Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.

Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

Por Clarice Lispector, em 'As Cem Melhores Crônicas Brasileiras'. Org. Joaquim Ferreira dos Santos.


domingo, 8 de novembro de 2009

"Depois de tocar Chopin, sinto-me como se chorasse por pecados que jamais cometi e lamentasse por tragédias de que não fui vítima".

Por Oscar Wilde, em 1891.

Tirei
do 'Guia Ilustrado Zahar de Música Clássica' (Jorge Zahar Editor).

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

cor de Rosa (fragmentos - 16)

Quem vence, é custoso não ficar com cara de demônio.
[...]
O que é que uma pessoa é, assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos? (...) As coisas que eu tinha de ensinar à minha inteligência.
Por João Guimarães Rosa em 'Grande Sertão: Veredas'.

*

Qual é o sentido da coerência?
Dizem que é prudente observar a história sem sofrer.
Até que um dia, pela consciência, a massa tome o poder.
Ando pelas ruas e vejo o povo magro, apático, abatido.
Este povo não pode acreditar em nenhum partido.
Povo alquebrado, cujo sangue sem vigor...
Esse povo precisa da morte, mais do que se possa supor.
O sangue, que estimula em meu irmão a dor.
O sentimento do nada que gera o amor!
A morte como fé, não como temor!


Fala do personagem Paulo Martins, no filme 'Terra em Transe', de Glauber Rocha.
*Contribuição preciosíssima do amigo Fernando Marques Fraga, a quem agradeço pela dica.