sexta-feira, 6 de novembro de 2009

*

Qual é o sentido da coerência?
Dizem que é prudente observar a história sem sofrer.
Até que um dia, pela consciência, a massa tome o poder.
Ando pelas ruas e vejo o povo magro, apático, abatido.
Este povo não pode acreditar em nenhum partido.
Povo alquebrado, cujo sangue sem vigor...
Esse povo precisa da morte, mais do que se possa supor.
O sangue, que estimula em meu irmão a dor.
O sentimento do nada que gera o amor!
A morte como fé, não como temor!


Fala do personagem Paulo Martins, no filme 'Terra em Transe', de Glauber Rocha.
*Contribuição preciosíssima do amigo Fernando Marques Fraga, a quem agradeço pela dica.

sábado, 10 de outubro de 2009

...

"Era dia comum
e virou festa.
A gente põe nas coisas
as cores que tem por dentro".

Por Antonio Marcos Noronha, rm 'Festa'

Sobre Manoel de Barros

"(...) Tem escritores, tem poetas, que escrevem para dizer como as coisas são. Tem outros que escrevem para inventar como elas poderiam ser, se tudo fosse mais encantado e, por isso, mais verdadeiro. Com esse amigo, Manoel de Barros, tenho aprendido a esperar flor florir, a olhar o mato e ver a festa, a conversar com lagartixa, a fazer peraltices com as palavras, a espiar vôo de passarinho até ver a cor do vento. Um dia, quem sabe, eu aprendo... eu só não, nós todos, a carregar água na peneira, a me apaixonar por moça que não existe. (...)"

Por Carlos Rodrigues Brandão

Poema de Fernado Pessoa

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar,
Sabe bem olhar p´ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P´ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Por Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Doce, doce...melado!!!

AMAR TEUS OLHOS

Podia em teus olhos navegar
conjugar os verbos dar e receber.
Podia com teus olhos
escrever o verbo semear
e ser tua pele
a terra de nascer poema.

Podia com teus olhos escrever
a palavra além ou aqui
ou a palavra luar,
recolher-me em teus olhos de lua
só teus olhos amar.

Podia em teus olhos perder-me
não fossem, amor, teus olhos,
o tempo de achar-me.

Carlos Melo Santos, em "Lavra de Amor"

domingo, 27 de setembro de 2009

Perfeito!

ORION

A primeira namorada, tão alta
que o beijo não a alcançava,
o pescoço não a alcançava,
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilômetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.

Por Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Angústia - 2

Nunca presto atenção às coisas, não sei para que diabo quero olhos (...). Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba.
***
O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando-se, sentindo vontade de se traírem. Histórias fáceis, sem almas complicadas.
***
Sentia vontade de chorar, tinha um bolo na garganta.
Por Graciliano Ramos, em 'Angústia'

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Trova

Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assim crescesse:
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho inimigo de mim?

Por Francisco de Sá de Miranda em Obras completas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Só se acha o que se caça; o que negligenciamos nos escapa.


Fala do personagem Creon, em 'Édipo Rei', de Sófocles

Tradução de Trajano Vieira
Versão na íntegra para download em
http://letrasuspdownload.blogspot.com/2009/08/flc0113-livro-edipo-rei.html

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Nalgum lugar...

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

(...)

(não sei o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

Por E. E. Cummings
Tradução de Augusto de Campos
Do blog antoniocicero.blogspot.com